domingo, 18 de setembro de 2011

QUE EDUCAÇÃO PRECISAREMOS TER PARA SOBREVIVER NO SÉCULO XXI?

Gilberto Teixeira
(Prof. Doutor FEA/USP)
 
 
0 propósito deste texto é colocar em discussão uma preocupação de quem tem uma parcela de responsabilidade no processo ensino‑aprendizagem.
Essa preocupação, se refere ao flagrante e até  mesmo paradoxal contraste entre o extraordinário desenvolvimento tecnológico dos nossos tempos e o anacronismo das instituições escolares, principalmente as universidades.
E a preocupação se faz angustia quando sabemos que hoje, mais do que nunca, muito se espera e muito se depende da eficiência do desempenho dos estabelecimentos de ensino.
Em verdade, mais do que especialistas capazes de entender a acionar os sofisticados engenhos desta fantástica era tecnológica, urge formar um novo homem capaz de preservar sua integridade existencial ante os impactos dessa avalanche de transformações que desaba, com freqüência asfixiante, sobre nossas despreparadas cabegas.
Sociólogos, filósofos, psicólogos a psquiatras tem alertado , com a força de sua veemencia, para os riscos apocalípticos dessa enfermidade psicológica que já atormenta a humanidade:
 
a "doença da transformação" para a qual o enfarte é apenas um dos sintomas e a loucura a própria libertação.
 
Qualquer pessoa que venha acompanhando os progressos dos últimos cinqüenta anos irá concordar que, em termos de avanços tecnológicos, aconteceram mais coisas após o nosso nascimento do que em toda a história da civilização.
Essa observação é ilustrada, de modo muito significativo por TOFFLER:
 
"Se os últimos 50.000 anos de existência do homem – diz ele – fossem divididos em períodos de geração de, aproximadamente, 62 anos cada um, teríamos tido aproximadamente 800 gerações.
 
Dessas 800 gerações 650 foram completamente passadas nas cavernas. Apenas durante as 70 últimas gerações foi possível a comunicação efetiva de uma geração para outra, uma vez que a escrita possibilitou essa transposição.
 
Apenas durante as ultimas 6 gerações as massas humanas viram, pela primeira vez, a palavra impressa. Somente durante as últimas 4, foi possível medir o tempo com alguma precisão.
 
Apenas nas 2 ultimas pode alguém usar um motor elétrico e a esmagadora maioria de todos os bens materiais que usamos cotidianamente, em nossa vida comum desenvolveu-se dentro da presente geração que é a octocentesima”.
 
De resto, a aceleração do fluxo das descobertas científicas, nas últimas décadas, se faz bastante especial porquanto a tecnologia alimenta‑se da propria tecnologia, gerando ciclos contínuos de novas idéias criadoras.
A crescente intensificação desses processos inventivos acelera a tal velocidade as transformações sociais que as fazem desintegrar o próprio espírito humano, incapaz de adaptar‑se à vertiginosidade dessas mudanças.
Na era da transitoriedade em que o futuro invade presente, na notável antecipação das conquistas tecnológicas, alteram‑se radicalmente noções de tempo e de espaço, marcos de referências de nossa percepção do mundo, e o efêmero das situações passou a ser o único dado permanente deste apequenado planeta convertido em simples aldeia global.
Assim, desgarrados de suas velhas maneiras de pensar a de sentir, desorientam‑se os homens ante sua capacidade de desenvolver um relacionamento mais duradouro com pessoas, coisas, idéias a valores de uma fluida realidade sempre transeunte.
As insuportáveis tensões geradas por essas frustadas tentativas de adaptação, provocam a desestabilização psicologica do homem que explode sob as formas indisfarçáveis da violência, do vandalismo, da toxiconomia a do fanatismo místico tão comum em nossos dias.
Além dessas reações extremadas de alguns, todos sofremos coletivamente a neurose do movimento e a psicose da pressa com que tentamos acompanhar os ritmos avassaladores desse tempo de urgência.
Por outro lado, com a crescente eficiência dos incessantes aperfeiçoamentos tecnológicos, os meios de comunicação bombardeiam a todo instante nossos sentidos e nossas mentes, sobrecarregando‑os de sons, imagens e informações, níveis de intensidade que não nos permitem organizar nossas defesas.
Incapazes de processar os estímulos recebidos, somos vítimas inermes de mensagens não digeridas pelo senso crítico, que violam a intimidade do nosso subconsciente, num verdadeiro crime psíquico para o qua as leis penais ainda não catalogaram sanção.
Analisando sob aspectos eticos essa agonia da civilização, GEORGES GUSDORF expressa de forma bem patética os efeitos do turbilhão tecnológico sobre as condições de experiência humana;
 
"A inflação técnica é tão angustiante quanto a inflação monetária; a superabundância inquieta tanto quanto a penuria”.
 
A humanidade atual está dotada de equipamentos de todos os gêneros que the permitem todos os excessos de potência: os excessos de velocidade, os excessos de produção e de consumo, os excessos de distribuição.
A civilização não se desenvolve mais em escala humana; ela perdeu o senso do possível a do impossível; do desejavel e do indesejavel.
Na dramaticidade desse angustiante quadro patológico em que a crise existencial de cada um já degenera na doença social de todos, faz‑se premente e indispensavel uma estratégia de sobrevivência do ser homem.
Nem ingenuidade, nem o desespero serão refúgios seguros para nossa irresponsabilidade.
Advertidos de que nada podera deter a irreversível escala do desenvolvimento científico, a sabendo que as inovações tecnológicas dele decorrentes tendem a acelerar ainda mais, em ritmos de progressão geométrica, a velocidade das mudanças, somente nos resta nos preparar para enfrenta‑las.
A inexistência faz evidente e incontornável nosso caminho: temos que forjar um novo homem, capaz de confrontar a transição e preservar os valores; apto para antecipar as mudanças e determinar direções.
Um indivíduo, enfim, capaz de dominar a técnica submentendo‑a a mera condição de meio eficiente e obtenção de fins verdadeiramente concentrados na realizaçao do homem enquanto homem.
A certeza da decisiva importância desse importante objetivo educacional aumenta o constrangimento da irrecusável contratação: não será, decerto, no arcaico modelo escolar dos nossos dias que se constituirão esses novos homens capazes de subjugar o futuro.
Em verdade, para enfrentarmos com êxito os danosos enfeitos sociais do excesso de tenologia, teríamos paradoxalmente, que nos valer, em nossa empreitada educacional, de todos os recursos tecnológicos sob pena de perdermos definitivamente essa corrida desigual, na qual já estamos bastante defasados.
Entretanto, foçoso a reconhecer que a estrutura escolar e a mais conservadora das instituições sociais, mantendo praticamente inalterada, em seus efeito pedagógicos, a consepgao medieval do "trivium" e do "quadrivium"...
As inegáveis conquistas da Ciencia Pedagógica não correspondem a avanços significativos na prática educativa da maioria das nossas escolas.
Tão lamentável constatação era feita, há alguns anos atrás, pelo Dr. MARCOLM ADISESHIAM com sua autoridade de representante do Diretor Geral da UNESCO:
"Encarada como uma empresa – afirmou ele – a escola
apresenta um espetáculo conquistador.
Encontramos no ensino uma tecnologia anti‑diluviana, que não sobreviveria por um só instante em qualquer setor da economia.
Os métodos de ensino e as técnicas de aprendizagem
são bolorentos, canhestros a antiquados"
 
Por outro lado, além de não incorporar as conquistas tecnológicas, a escola, em seu vezo de voltar‑se sempre para o passado, finge até ignorá‑las como pretender isolar‑se, nostálgica, nos claustros que, por muito tempo, serviram de morada.
Não é a toa que COOMBS, reportando‑se ao tradicionalismo de nossa arquitetura escolar, condicionada a condicionante de um invariável estilo pedagógico, classifica a "sala de aula, com suas paredes rigidas a impermeaveis as novidades do mundo exterior", "a cela de monge do processo educacional" onde, acrescentaria LAURO DE OLIVEIRA LIMA, "imola‑se a aprendizagem no altar do formalismo didatico".
Nesse espaço acanhado exerce‑se todo o conhecimento oficialmente reconhecido polo certificado final, convalidador de todas as ignorâncias.
Dai que a única fonte do saber admitida é o discurso do professor, verdade que não pode ser debatida e, muito menos, contestada.
A metodologia dominante reduz, portanto, a dois monólogos o processo ensino-aprendizagem: o discurso em que se oferece a informação; e a avaliação em que o aluno prova a recepção repetindo o discurso.
É o regime da repetência:
“quem não repete bem durante o ano, repetira a serie no ano seguinte".
 
Por outro lado, esquecidos de que a informação só tem valor como combustível para a reflexão, insiste‑se na aula expositiva que supoem a ciência definitiva e o mundo acabado.
Hipertrofia‑se o sentido informativo num mundo em permanente transformação, em que o próprio professor não tem condições de se manter atualizado com a evolução cognitiva.
Nesse contexto anacronico, o quadro verde e o giz colorido representam os maiores avanços tecnológicos...
De resto, e a filosofia pedagógica que direciona a utilização dos meios disponíveis.
Assim, os proprios recursos audio‑visuais quando usados se transformam, as mais vezes, em meros sucedaneos do quadro‑negro, funcionado como ilustrações do verbalisrrn dominante.
Emaranhado nos ritos do formalismo legal, em meio a contabilidade das cargas horárias e ao dogmatismo dos currículo a programas, afogam‑se os útimos suspiros da criatividade escolar.
Incapaz de catalizar a energia juvenil para núcleos de interesse do próprio aluno (um ser curioso, por natureza), a Escola – atraente apenas na hora da merenda – se esgota e se desgasta em inúteis ações repressoras contra os que recusam em aquietar nas bancas do tédio o seu entusiasmo Vital.
Dai que a emocionante aventura da descoberta do conhecimento resta reduzida a momentos de estática monotonia, aprisionadores de contrafeitos alunos que explodem aliviados ao ansiado toque da libetadora campainha.
A propósito, convem destacar que o crescente desinteresse dos alunos, expressos nos alarmantes índices de evasão e de repetência a no baixo aproveitamento dos que logram permanecer na instituição escolar, sao denúncias contundentes da ineficiência do sistema educacional.
Nesse quadro crítico de tantos desacertos, a ressalva as excessões tão raras quanto valorosas, se não atenua a rudeza do diagnóstico geral, pelo menos não injustira aqueles professores, especialistas, técnicos a administradores do ensino que se tem rebelado, com sua palavra e com o seu esforço, contra a estagnação pedagógica.
 
A magnitude de problemas tão crônicos é a dimensão do desafio:
Persistência dos que insistem em tentar resolvê‑lo, animados da esperança de que a conciência das dificuldades é o principio da sua solução.
Precisamos fazer nosso sistema educacional funcionar como estimulador da inteligência, substituindo programas e currículos por situações‑problemas.
 
Precisamos engaja‑lo no programa tecnológico, desenvolvendo as chamadas "tecnologias intermediárias", adaptadas à nossa depauperada economia, nas quais os únicos equipamentos são os
cérebros de alunos e professores.
Precisamos fazer uma escola onde se aprenda a solucionar, criticar e a escolher o que a válido e o que é autentico na multiplicidade das informações disseminadas pelos meios de comunicação.
Precisamos de uma escola onde se "aprenda a aprender".
Precisamos construir um novo homem capaz de se adaptar, eficientemente, durante a vida inteira a um ambiente em contínua mudança.
Precisamos educar homens criativos a não mecanizados robôs.
O obsoletismo pedagógico frauda a tese democrática de escola para todos, convertendo‑a numa vã demagogia.
Ou formamos homens capazes de dirigir os seus destinos, resistindo aos impactos do futuro, ou simplismente fabricamos os escravos dessa tirania sem pátria e sem quartel:
·        a ditadura das maquinas, a tirania tecnológica.
 
Precisamos, mais que tudo, redescobrir com o
poeta essa verdade essencial:
"Ha outro mundo: ele esta aqui".
 
Para reencontrar o ser perdido do homem, haveremos que trilhar o caminho da autenticidade, sempre aberto aos que se dispõe, verdadeiramente, a ser os peregrinos do espaço interior, único reduto seguro de nossa ameaçada LIBERDADE.

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