domingo, 18 de setembro de 2011

A Pedagogia de Projetos de Aprendizagem


Um grande educador, Antonio Carlos Rodrigues de Moraes, hoje assessor da Secretária de Educação do município de Campinas, disse uma vez que educação é o processo pelo qual nos tornamos capazes de viver os próprios sonhos – e que o bom mestre é, portanto, um pastor de sonhos...
Essa é uma formulação bastante poética do conceito de educação, mas não é uma formulação inadequada.
Mais técnica e menos poeticamente, educação, em seu sentido mais amplo, é o processo mediante o qual as pessoas desenvolvem as competências necessárias para viver vidas autônomas, produtivas e responsáveis, tanto no plano individual (privado) como no social (público).
Notem bem: educar é desenvolver as competências que tornam uma pessoa capaz de viver uma vida autônoma, produtiva e responsável.
Sempre se soube que é possível que uns ajudem os outros a se educarem.
Os pais, os primeiros educadores, sabem disso. Às vezes vão além além e, em vez de ajudar os seus filhos a se educarem, imaginam que podem, eles próprios, educar os seus filhos... com resultados nem sempre desejáveis.
A escola é construída no princípio de que é possível que uns ajudem os outros a se educarem. Mas também ela freqüentemente tenta ir além e reivindica para si um pretenso direito de educar os outros...
“Ninguém educa ninguém”, nos lembra o mestre Paulo Freire numa bela página de Pedagogia do Oprimido [Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, RJ, 6ª edição, 1979, p.79]. Se ele parasse aí, não haveria por que termos escolas. Mas ele continua: mas “ninguém se educa a si mesmo”.
Mas como pode se dar a educação, se ninguém educa ninguém e ninguém se educa a si mesmo? A resposta de Paulo Freire é clara e difícil de contestar: “os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo”. Em outras palavras: ninguém educa ninguém – mas ninguém se educa sozinho...
O ser humano se educa quando ele se põe em contato, em diálogo, “em comunhão” com outros seres humanos, e, juntos, refletem sobre os seus sonhos e a realidade, freqüentemente dura, que precisarão transformar para que seus sonhos possam se tornar realidade.
Para que haja educação é necessário que nos tornemos capazes de viver nossos próprios sonhos – não os sonhos dos outros.
Para que vivamos nossos próprios sonhos é preciso, em primeiro lugar, (re)aprender a sonhar – ou não deixar que a realidade, por vezes dura, nos leve a desaprender a arte de sonhar. Mas é preciso, em segundo lugar, aprender como transformar um sonho em realidade. Nossos sonhos não vão se transformar em realidade apenas porque os sonhamos. Somos nós que temos de transformá-los em realidade. “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer” – quem nos lembra disso é Geraldo Vandré, que teve alguns lindos sonhos, mas não pôde torná-los realidade.
Pastorear sonhos, que, segundo Antonio Carlos Rodrigues de Moraes, é a missão do educador, não é dar “sonhos prontos”, empacotados, às pessoas – procurando, assim fazer com que elas eventualmente realizem sonhos sonhados por terceiros. Educar, ou pastorear sonhos, é ajudar as pessoas, primeiro, a sonhar seus próprios sonhos – a construir seus próprios projetos de vida – e, segundo, a encontrar as melhores maneiras de transformá-los em realidade.
Às vezes educadores criticam o cinema e a televisão (neste caso, especialmente as novelas e a publicidade), porque o cinema e a televisão estariam tentando dar “sonhos prontos”, empacotados, para quem assiste aos seus filmes e programas – especialmente para as crianças e os jovens, que seriam extremamente sensíveis a essa “venda de sonhos”. Não seria à toa que Hollywood já foi chamada de “fábrica de sonhos”.
Mas os educadores muitas vezes se esquecem de que a escola, também, muitas vezes não ajuda as crianças, adolescentes e jovens a viver SEUS PRÓPRIOS sonhos.
Na verdade, fala-se muito pouco em sonhos na escola. Mas talvez isto se dê porque estejamos, na escola, muito mais preocupados em passar para os alunos os nossos próprios sonhos – ou, o que é pior, os sonhos de autores de livros que nem conhecemos ou os sonhos de secretários e ministros da educação que preferiríamos nem conhecer...
Quando os alunos chegam a uma escola típica, não têm, em geral, como trabalhar ali seus próprios sonhos.
Se, nessa escola, se fala em projetos, geralmente é no “projeto pedagógico” da escola. Se os professores se interessam em projetos, é, geralmente, de “projetos de ensino” que se trata. Olhando para uma escola desse tipo, do ponto de vista dos alunos (e é em função deles que a escola existe, não é?), os projetos já vêm todos prontos – só resta executá-los.
Como é que os alunos vêem a escola? Temos que aprender a ler, a escrever e a contar, mesmo que não saibamos exatamente o porquê. Temos que estudar história de povos que viveram milhares de anos antes de nós e em lugares longínquos: os mesopotâmios, os hebreus, os persas, os assírios, os fenícios, os gregos, os romanos... – tudo sem saber exatamente o porquê. Temos que ficar sabendo qual a altura dos picos mais altos, o comprimento dos rios mais longos, o nome de seus afluentes, na margem direita e e na margem esquerda, o nome da capital de todos os países... tudo sem saber exatamente o porquê. Temos que aprender o que é adjunto adnominal e como se distingue do complemento nominal, o que é oração subordinada substantiva objetiva (direta ou indireta) e como se distingue de uma oração subordinada substantiva completiva nominal – tudo sem saber exatamente o porquê.
Encarada do ponto de vista dos alunos, a escola não está muito interessada nas perguntas que eles têm – nem os ajuda a aprender como formular perguntas interessantes! A escola tenta, isto sim, fazer com que os alunos aprendam as respostas – mas respostas a perguntas em que não estão nem um pouco interessados...
Assim, em vez de tratar das questões que realmente interessam os alunos, a escola tenta fazer com que eles se interessem por coisas que, em geral, estão muito distantes de sua vida, de sua realidade – de seus sonhos!
A escola não tenta descobrir quais são os sonhos dos alunos, não leva em conta aquilo de que eles gostam, não explora o que lhes interessa ou que eles sabem bem, ou que sabem fazer bem. (Na verdade, se os alunos fazem algo com facilidade e gosto, em geral os professores os “desincentivam” de fazer aquilo e procuram levá-los a fazer algo em que têm dificuldade e que não gostam de fazer...).
É por isso que o maior desafio da escola é motivar os alunos – fazer com que se interessem em aprender aquilo que o professor está tentando ensinar e que, em geral, está muito distante de seus interesses.
Seria tão mais fácil começar com aquilo que já os motiva naturalmente! Antes de chegar à escola as crianças são altamente motivadas para aprender – mas para aprender o que lhes interessa, o que lhes provoca a curiosidade, o que lhes desafia a engenhosidade...
Por que a escola não aproveita essa natural curiosidade, essa natural vontade de aprender, esse inclinação – esse quase instinto – para resolver problemas e vencer desafios?
Para a escola, os alunos têm que aprender – mas o aprender em geral é um aprender passivo, puramente verbal e teórico: um assimilar de informações desconexas (divididas em disciplinas estanques) que, muitas vezes, não fazem o menor sentido, e, por isso mesmo, são facilmente esquecidas. Na escola os alunos precisam aprender respostas para perguntas que não têm.
A proposta de que a aprendizagem escolar se faça predominantemente por projetos de aprendizagem – a pedagogia de projetos – procura reverter esse quadro, e de várias maneiras, dentre as quais seleciono as que me parecem mais importantes:
  • A pedagogia de projetos de aprendizagem procura evitar que crianças, adolescentes e jovens sejam obrigados a deixar de lado sua imaginação e sua criatividade ao entrar na escola, incentivando-os a pensar em coisas que gostariam de aprender e de fazer, cabendo ao professor procurar maneiras de, em cima desses interesses, tornar a atividade dos aprendentes útil no desenvolvimento de competências e habilidades básicas importantes para que vivam vidas autônomas, produtivas e responsáveis;
  • A pedagogia de projetos de aprendizagem procura evitar que a aprendizagem se torne algo passivo, puramente verbal e teórico, e, por conseguinte, desinteressante, abrindo o maior espaço possível para a participação ativa das crianças, dos aedolescentes e dos jovens, não só na concepção e na elaboração dos projetos, mas também na sua implementação e na sua avaliação, pois a participação dos aprendentes nos projetos não só os motiva (por estar relacionada com seus interesses) como torna a sua aprendizagem ativa e significativa – um real fazer mais do que um mero assimilar;
  • A pedagogia de projetos de aprendizagem procura restabelecer um vínculo entre a aprendizagem que acontece na escola e a vida das crianças, dos adolescentes e dos jovens, pois os projetos que eles escolhem ou sugerem parte, inevitavelmente, de questões relacionadas à sua vida e à sua experiência que lhes parecem importantes e sobre as quais eles se interessam em aprender mais.
 Autor  :Eduardo Chaves

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