A ESTIMULAÇÃO ESSENCIAL NO COTIDIANO DA EDUCAÇÃO INFANTIL
Cássia Carina Passos dos Santos
A estimulação essencial no cotidiano da educação infantil: auxiliando no desenvolvimento cognitivo e sensório-motor Artigo realizado para obtenção de título em Psicopedagogia Clínica e Institucional Faculdade Internacional de Curitiba - Facinter Pós-graduação em Psicopedagogia Clínica e institucional Orientador(a): Silvia Maria Barbosa Andri
A pesquisa bibliográfica teve como foco de estudo a educação infantil com ênfase a faixa etária dos zero aos três anos e onze meses de idade, considerada adequada à estimulação essencial. Demonstrando a importância de conhecer o desenvolvimento infantil para adequar as atividades estimuladoras a cada idade. Buscando compreender as vantagens das estimulações desde cedo para um melhor aproveitamento no período de alfabetização.
Palavras-chave: Estimulação essencial, desenvolvimento infantil, educação infantil
1 – IntroduçãoA creche durante muitos anos foi local, onde mães de baixa renda deixavam seus filhos para poderem trabalhar, tendo o método apenas assistencialista. Já na década de oitenta este conceito mudou, onde também pessoas de classes mais altas precisaram deste serviço. Porém na escola de educação infantil pública os conceitos adotados quanto às estimulações e preocupação ao desenvolvimento integral da criança em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, percebe-se a versão assistencialista, onde o aluno é higienizado e alimentado. Não há preocupação ao desenvolvimento infantil e tão pouco estimulação as suas habilidades e potencialidades. Sabemos que a educação infantil é apresentada em duas modalidades onde creche compreende o atendimento de crianças até 3 anos de idade e pré-escola para crianças de 4 a 6 anos de idade.
A pesquisa bibliográfica compreende o estudo na faixa etária entre 0 a 3 anos e 11 meses que compreende o período indicado à estimulação essencial, na educação infantil estas crianças frequentam o berçário e maternal. Para que a creche desenvolva a individualidade e autonomia de cada sujeito é preciso que a proposta pedagógica da escola de educação infantil seja estimuladora, construtivista e de acordo com desenvolvimento infantil. O profissional envolvido com esta faixa etária deve evidenciar em sua rotina, as atividades diárias como o desenvolvimento e dificuldades encontradas por cada aluno.
Nesta idade é aconselhável trabalhar a identidade e autonomia das crianças, e estas atividades podem acontecer através da arte, linguagem, brincadeiras e movimento. Estimular atividades para que possam realizá-las sozinhas, porém sempre com a supervisão de um mediador que será o apoiador e incentivador nestes obstáculos.
2 – A Estimulação Essencial (EE)Os humanos interagindo com o meio onde vivem desenvolvem suas funções cognitivas, motoras e emocionais. Em relação ao bebê se este não receber os estímulos adequados, ocasionará o prejuízo em seu desenvolvimento pleno. LEVY, 2001, p. 12 diz que:
(...) não basta amar e alimentar uma criança (...). É preciso compreender e saber que atividades motoras concorrem para o desenvolvimento do cérebro e são indispensáveis à organização do sistema nervoso. A ausência de estímulos acarreta a perda definitiva de funções inatas.
Utilizando o termo Estimulação Essencial (EE) que é adotado para designar o atendimento destinado a crianças de zero a três anos e onze meses de idade que apresentem ou não alguma deficiência e/ou aquelas consideradas situações de risco, que necessitam de atenção especial para favorecer o desenvolvimento, a aprendizagem e a socialização. De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases (lei nº 9.394/1996), as crianças que estão com esta idade frequentam a creche, escrito no:
Art. 30. A educação infantil será oferecida em: I - creches, ou entidades equivalentes, para crianças de até três anos de idade; II - pré-escolas, para as crianças de quatro a seis anos de idade.
Na sua maioria as crianças vêm de classes desfavorecidas de informações quanto ao desenvolvimento infantil. Para estes alunos é na escola onde esclarece as significações de mundo, no qual a realidade familiar, às vezes não vem auxiliar no progresso do mesmo. Sendo esta a ferramenta necessária para a estimulação destes, quanto à linguagem, o brincar e os movimentos.
Entendendo que a criança é um ser único e individual, os professores envolvidos neste tempo em que a criança tem na escola precisam trabalhar estas diferenças, organizar materiais interessantes à faixa etária, estímulos adequados, o berçário deve funcionar como um laboratório de aprendizagens, conhecimentos, curiosidades, onde o sujeito busca através da mediação com o adulto a descoberta das significações que irão ocorrer gradativamente em sua vida.
As atividades com brincadeiras servem para desenvolver a imaginação, e a experimentação global do corpo e as brincadeiras que utilizam objetos estimulam ao toque onde a criança percebe e diferencia diversos tipos de texturas, tamanhos e formas, auxiliando ao desenvolvimento da motricidade fina.
A linguagem desenvolve-se mesmo que ainda sejam alguns balbucios, já demonstra interação com o grupo. E as atividades recomendadas são cantigas, parlendas e histórias. Fazer rodas de conversas são essenciais para o entendimento quanto a escutar o outro e discutir. O educador deve ser o mediador neste diálogo.
A nossa capacidade de conhecer o mundo vêm da associação da nossa aprendizagem sobre o meio, da maneira de como o cérebro age sobre o objeto (interação), o objeto no qual colocamos equivale a qualquer tipo de exploração. Através da teoria construtivista o indivíduo após entender as estimulações terá a capacidade de se adaptar a conhecimentos novos de forma criativa e crítica. Este período das crianças até os três anos é conhecida com a fase das experimentações que ocorrem através dos sentidos e movimentos. O movimento é importante porque incentiva o aprendizado quanto ao reconhecimento do próprio corpo, auxiliando futuramente quanto à direcionalidade, equilíbrio, coordenação motora, lateralização, percepção corporal e tônus. De acordo com Palma (2005, p. 11):
Podemos considerar, então, que as crianças, através das funções psicomotoras, mediam com o seu corpo o mundo em que vivem de forma harmônica. Portanto, confirmamos a importância do desenvolvimento psicomotor no contexto escolar.
Sabemos que ao nascer temos possibilidades de desenvolver-se, mas é certo que não depende apenas das maturações orgânicas, mas também das interações com o meio, onde o indivíduo tem a capacidade de organizar sua imagem corporal. A criança precisa explorar o ambiente em que vivencia, colocar pequenos obstáculos no caminho favorece aos desafios. Segundo o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (1998, p. 19):
Há práticas que privilegiam os cuidados físicos, partindo de concepções que compreendem a criança pequena como carente, frágil, dependente e passiva, e que levam à construção de procedimentos e rotinas rígidas, dependentes todo o tempo da ação direta do adulto. Isso resulta em períodos longos de espera entre um cuidado e outro, sem que a singularidade e individualidade de cada criança seja respeitada. Essas práticas tolhem a possibilidade de independência e as oportunidades das crianças de aprenderem sobre o cuidado de si, do outro e do ambiente. Em concepções mais abrangentes os cuidados são compreendidos como aqueles referentes à proteção, saúde e alimentação, incluindo as necessidades de afeto, interação, estimulação, segurança e brincadeiras que possibilitem a exploração e a descoberta.
A escola, educadores e a família devem entender que nesta idade as estimulações são importantes para um melhor desenvolvimento no ensino fundamental, a preocupação preventiva se deve ao número excessivo de crianças com dificuldades na aprendizagem, devido a falta de orientações necessárias na fase inicial de sua vida escolar. Organizar um currículo de acordo com a idade, que tenha os objetivos de desafiar este sujeito ao conhecimento de forma prazerosa e livre, proporciona significações para o aprendizado. Esta exigência está em concordância a Lei de Diretrizes e Bases (9394/96):
Art. 29º. A educação infantil, primeira etapa da educação básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade.
Sabemos que crianças estimuladas desde cedo em atividades de leitura, dramatização e comunicação tem mais facilidade no período da alfabetização. Este sujeito pode experenciar e significar a necessidade das letras ouvindo histórias.
A criança precisa explorar o ambiente em que vivencia, colocar pequenos obstáculos no caminho auxilia quanto a organização do movimento. Os déficits do esquema e da imagem corporal chamado de dispraxia, onde a criança possui dificuldade quanto ao pensamento espacial e tem desorganização global do comportamento, dificultando a utilização e conservação da informação ocasionando dificuldades na aprendizagem. A escola pode intervir com exercícios podendo minimizar estes problemas. A criança com problemas de lateralização que geram inversões ou confusões terá dificuldade quanto à leitura.
Para um melhor entendimento da necessidade dos estímulos na faixa etária de zero aos três anos, Velasco (1996, p. 22), explica como o sujeito de 6(seis) meses elabora seus movimentos ao ver um brinquedo e tenta pegá-lo:
-ela observa o brinquedo visualmente, a zona do cérebro responsável pelo movimento dá a ordem e seu esquema corporal realiza a ação no espaço que a rodeia. Ela precisa ver o objeto, ter o impulso e se deslocar em direção a ele, segurá-lo e trazê-lo para si. Existe, pois, uma sequência no tempo e no espaço e, nesse momento, o cérebro em ação funciona às custas das conexões existentes entre as áreas visuais, táteis, cinestésicas, motoras, equilibratórias e intencionais.
Quanto ao desenvolvimento infantil existem várias teorias, escolhidas como os principais autores Freud e Piaget, de acordo com o quadro de Coquerel (2010, p. 71), exposto abaixo poderemos equiparar a análise destes estudiosos:
Como vemos em Piaget na fase sensório-motora que vai dos 0-24 meses a criança está em um crescimento físico e mental, então é importante ter cuidado com a escolha dos brinquedos, esta fase está voltada para o conhecimento. Os brinquedos indicados para este período seriam os de encaixe, triciclos, móbiles, chocalhos, livros emborrachados, materiais recicláveis e bolas de vários tamanhos. Velasco (1996, p. 78), nos remete a pensar à importância dos jogos educativos para o melhor desenvolvimento do sujeito:
Brincando, a criança desenvolve suas capacidades físicas, verbais e intelectuais. Quando a criança não brinca ela deixa de estimular, e até mesmo desenvolver suas capacidades inatas e pode vir a ser um adulto inseguro, medroso e agressivo. Já quando brinca a vontade, tem maiores possibilidades de se tornar um adulto equilibrado, consciente e afetuoso.
A importância do brincar na creche deve ser vista na forma pedagógica, o profissional que ali irá desenvolver suas atividades, não deve ser apenas o recreacionista e sim o mediador. O psicopedagogo pode ser este suporte para a prática educativa, assim como diz Grassi (2008, p. 33):
Brincar é muito importante para a criança, portanto essa atividade não deve ser vista como meramente distrativa ou, ainda, como um passatempo. Muito pelo contrário, é uma atividade que participa da estruturação do sujeito, além de ser um recurso psicopedagógico importante nas práticas educativas.
O psicopedagogo tem a capacidade de analisar, intervir e auxiliar quanto a prática pedagógica de crianças entre zero e três anos de idade, pois este conhece as consequências que podem causar quando a criança não é estimulada da forma correta. De acordo com Grassi, (2009, p. 154):
Na ação preventiva, cabe ao psicopedagogo focalizar as possibilidades de aprendizagem do sujeito, analisando a família, a escola e a comunidade, com o intuito de conhecer todos os envolvidos no processo, bem como as condições que oferecem ao sujeito, e orientá-lo quanto às etapas do desenvolvimento infantil, à importância da estimulação, ao processo de aprendizagem e suas dificuldades. Essa ação deve ocorrer antes que as dificuldades de aprendizagem apareçam.
Sabemos que a psicopedagogia pode estar no campo clínico ou institucional, não atua sozinha e, sim desenvolve um trabalho multidisciplinar, onde outros profissionais estarão envolvidos no processo de aprendizagem. No campo institucional podendo realizar entrevista com os pais a respeito dos filhos, reuniões pedagógicas para a formulação do currículo escolar e auxilio aos professores quanto aos melhores estímulos. Já no campo clínico o psicopedagogo será o mediador do sujeito que irá aprender, deverá induzir atividades e perceber quando será o momento de surgir novos desafios, identificar o interesse e dificuldades de cada criança, respeitar os limites de cada um, auxiliar a criança nas atividades, porém incentivando à autonomia, motivar a espontaneidade e ajudar na construção da identidade. Estes dois campos estão interligados sendo difícil separá-los.
A arte através dos desenhos proporciona a identidade, onde o sujeito expressa onde ele vive e serve como análise para o educador conhecer este sujeito.
A psicopedagogia no espaço da creche age com o caráter preventivo, não espera ocorrer a queixa do sujeito apenas no ensino fundamental, acontece um trabalho anterior ao problema, ensina ao aprendente fortalecer o vínculo com o conhecimento.
De acordo com a neuroplasticidade as vesículas sinápticas são estruturas muito importantes no mecanismo de transmissão dos impulsos nervosos, chamados sinapses. Em relação à aprendizagem quanto mais sinapses ocorrerem, mais a criança tem a capacidade de aprender, por isso à importância de realizar estímulos para formação de novas sinapses. Em alguns casos onde há falta, diminuição ou excesso de neurotransmissores responsáveis pela transmissão dos impulsos nervosos, acontecerão alterações orgânicas ou emocionais. (DAMILANO, 2005. P. 15-16).
3 – ConclusõesApós as pesquisas sabemos que os primeiros anos de vida de uma criança são fundamentais para sua estruturação subjetiva e para o seu desenvolvimento. Como vimos a neuroplasticidade revela que o período importante são os três primeiros anos, onde o cérebro está pronto para receber novas habilidades, através de estímulos por meio do jogo simbólico, levando o sujeito a estabelecer diferentes significados ao seu ambiente.
A criança precisa construir sua autonomia e cidadania e, isto começa quando ela participa de um grupo social seja ele familiar ou escolar, através das experiências com o outro, na realização de brincadeiras, cantigas e movimento estabelece-se vínculos diferentes.
Com rotinas organizadas a faixa etária e as necessidades, o sujeito irá explorando objetos e brincadeiras a fim de que construa seu conhecimento através da imaginação, sendo ela responsável pela regulação das emoções e das ações.
As atividades ocorridas na faixa etária dos zero aos 3 anos e 11 meses e sendo orientadas por um psicopedagogo iram auxiliar ao desenvolvimento do raciocínio lógico, orientação espaço-temporal, percepção, lateralidade, tônus e descontração muscular, equilíbrio e postura e coordenação motora. No qual serão responsáveis pela facilitação do aprender no período de alfabetização.
Nesta fase a criança tem necessidade de ouvir, tocar, sentir, entre outros. É o início da socialização da ação. No ambiente escolar a partir do primeiro ano do ensino fundamental o professor é capaz de reconhecer os alunos que foram estimulados e expostos ao conhecimento através das significações e também saberá que este suporte irá facilitar a aprendizagem. Quando um aluno é caracterizado com dificuldades na aprendizagem e este não possui nenhuma implicação física ou mental sabemos que, se não houve primeiramente construções sobre as significações de mundo, haverá frustrações e fracassos e a aprendizagem se tornará “torturante”.
Por isso a importância do mediador da criança saber elevar a autoestima, oportunizar experiências variadas que estimulem à aprendizagem, a motivação ao aprender novas situações, a criança tem o desejo de aprender, através de sua curiosidade em conhecer o mundo, por meio de seu corpo, experimentando, investigando, degustando, analisando e trabalhando de forma cooperativa, só assim acontecem as mediações.
Não deveria ser desperdiçada a oportunidade de realizar um trabalho psicopedagógico com estes sujeitos participantes da educação infantil, no âmbito preventivo a tarefa do psicopedagogo está em preocupar-se em minimizar efeitos negativos, que possam impedir a aprendizagem.
Bibliografia
BRASIL. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO – MEC. LEI DAS DIRETRIZES E BASES DA EDUCAÇÃO NACIONAL. Lei nº 9.394 de 20 de dezembro de 1996. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9394.htm>. Acessado em 25/07/2010.
BRASIL. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO - MEC. REFERENCIAL CURRICULAR NACIONAL PARA A EDUCAÇÃO INFANTIL / Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação Fundamental. — Brasília: EC/SEF, 1998. 3v.: il. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/rcnei_vol1.pdf. Acessado em: 15/5/2010.
Coquerel, Patrick Ramon Stafin. Neuropsicologia. Curitiba: Ibpex, 2010 (Série psicologia em sala de aula).
DAMILANO, José Luiz Padilha. Fundamentos neuropsicológicos da aprendizagem : 3º semestre / [elaboração do conteúdo prof. José Luiz Padilha Damilano; revisão pedagógica e de estilo profa. Ana Claúdia Pavão Siluk...[et al]].- 1 ed..- Santa Maria, Universidade Federal de Santa Maria, Pró-Reitoria de graduação, Centro de Educação, curso de Graduação a distância de Educação Especial, 2005.
Grassi, Tânia Mara. Oficinas psicopedagógicas. 2. ed. rev. e atual. – Curitiba: Ibpex, 2008.
Grassi, Tânia Mara. Psicopedagogia: um olhar uma escuta. Curitiba: Ibpex,
2009.
LEVY, J. O Despertar do Bebê. São Paulo: Martins fontes, 2001.
Palma, Luciana Erina. Educação e movimento humano: 5º semestre/[elaboração do conteúdo: coordenação profa. Luciana Erina Palma, profa. Márcia Gonzalez Feijó Almeida, acadêmica Daniela Ana Agnolin; revisão pedagógica profa. Ana Cláudia Pavão Siluk...[et al.]].- 1. Ed.- Santa Maria, Universidade Federal de Santa Maria, Pró-reitoria de Graduação, Centro de Educação, Curso de Graduação a Distância em Educação Especial, 2005.
Velasco, Cacilda Gonçalves. Brincar, o despertar psicomotor. Sprint Editora. Rio de Janeiro. RJ. 1996.
Currículo(s) do(s) autor(es)
Cássia Carina Passos dos Santos - (clique no nome para enviar um e-mail ao autor) -

Nenhum comentário:
Postar um comentário